terça-feira, 15 de março de 2011

Viajar é preciso. Viver não é preciso.

Domingo, 22 de agosto de 1982. Você lembra o que aconteceu nesta data? Eu lembro. Meu amigo Marcos entrou na minha casa e disse: “Você viu que dá para viajar de graça para os Estados Unidos?”. E explicou: “O câmbio oficial está Cr$ 192,00 / US$ 1,00, enquanto o paralelo está CR$ 300,00 / US$ 1,00. Quem viaja pode comprar US$ 2.000,00 pelo câmbio oficial. Um pacote Fly and Drive (passagem, hotel e aluguel de carro) está custando US$ 1.100,00 também pelo dólar oficial. Então: US$ 3.100,00 pelo oficial = Cr$ 595.000,00; US$ 2.000,00 pelo paralelo = R$ 600.000,00. Pronto! Uma semana de graça nos Estados Unidos.”

Antes de prosseguir cabem algumas explicações, principalmente para quem não era nascido àquela época. O Cruzeiro era a moeda oficial do país, representada pelo símbolo Cr$. A inflação era alta no país e as pessoas compravam dólares para preservar o valor do dinheiro. Existia um controle cambial muito rígido e o dólar oficial só podia ser comprado em circunstâncias específicas e em quantidades específicas. Brasileiros não podiam ter cartão de crédito internacional. Não se podia sacar de sua própria conta em viagem ao exterior. Então, as pessoas recorriam aos doleiros. Era ilegal, mas as cotações eram divulgadas diariamente pelos jornais. Coisas de Brasil!

Naquele momento o governo ampliou a quantidade de dólares que podia ser comprada no câmbio oficial por quem ia viajar; de US$ 1.000,00 para US$ 2.000,00. Criou-se a janela de oportunidade que o Marcos identificou.

Eu quis aproveitá-la. Mas, não tinha passaporte e muito menos visto. A cronologia foi a seguinte:
Segunda-feira, 23 de agosto. Falei com meu chefe no trabalho, se eu podia aproveitar o feriado de sete de setembro para passar uma semana fora. Ele permitiu. Liguei para a agência de viagens e fiz a reserva do pacote.
Terça-feira, 24 de agosto. Fui ao doleiro e vendi os US$ 2.000,00 que eu já tinha guardados para outra viagem que eu pensava fazer. No mesmo dia, fui à polícia federal e dei entrada no pedido de passaporte. Ainda na terça-feira, fui à agência de viagens e paguei o pacote.
Quarta-feira, 25 de agosto. Peguei meu passaporte (sim, naquela época ficava pronto em 24 horas) e fui ao consulado americano para dar entrada no pedido de visto.
Quinta-feira, 26 de agosto. Fui pegar o visto (sim, naquela época ficava pronto em 24 horas). Foi negado! Com razão; eu era um garoto de 23 anos, solteiro, sem bens: candidato perfeito a ir e não voltar. Pedi para falar com o cônsul. Ele veio pessoalmente e eu expliquei que não era nada disso. Mostrei que eu cursava o mestrado, que eu tinha um emprego e não tinha nenhum motivo para ficar nos EUA lavando pratos. Ele me concedeu um visto, válido para uma única entrada e com validade para 90 dias. Era só o que eu precisava e agradeci muito.
Sexta-feira, 27 de agosto. Nada aconteceu. Muita tensão. Já imaginou se o governo fizesse uma maxidesvalorização do Cruzeiro (outra coisa bastante comum em tempos de controle cambial)? Todo o esquema iria furar. E eu só podia comprar os dólares com a passagem na mão.
Sábado, 28 de agosto. A passagem chegou. Fui ao Galeão e comprei os dólares na agência do Banco do Brasil que funcionava em regime especial por lá. Tudo pronto!
Terça-feira, 31 de agosto. Embarquei para 8 dias de uma excelente e inesquecível viagem.

Tente fazer isto hoje! Para tirar o passaporte, você precisa iniciar um processo pela Internet, mas agendar a entrega dos documentos para algo entre dois e três meses depois e mais duas semanas até o passaporte ficar pronto. Com o visto, a mesma coisa ... ou pior. Tente conversar pessoalmente com o cônsul! Duvido que você consiga.

Ou seja, graças à Internet e com muita sorte, em APENAS seis meses você estará pronto para viajar.

Às vezes, dá saudades do século vinte.   

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