sábado, 22 de outubro de 2011

O mundo também evolui ... na direção errada.

Nunca fui fã do Kaddafi. E de nenhum ditador, diga-se de passagem. Mas, o que foi feito com ele é injustificável. E não me refiro à sua morte; sua presença não fará falta ao mundo.

Depois da 2a Guerra Mundial começou a Guerra Fria. A OTAN foi formada para enfrentar a Cortina de Ferro. Cada um dos blocos apoiava seus partidários nas diversas disputas locais que se sucederam. Testemunhamos a Guerra da Coreia, a Guerra do Vietnã, a tomada do poder em Cuba por Fidel Castro, os diversos golpes de direita e esquerda da América Latina, e mais não sei quantas outras batalhas. Às vezes interesses econômicos relevantes; outras vezes puro conflito ideológico.

Até que um dos blocos - a Cortina de Ferro - perdeu a guerra. Agora, só existe um dos lados e ficou claro que as práticas continuam as mesmas. Porém, sem oposição. Se a OTAN resolve apoiar um dos lados em luta, ao outro resta contar o tempo até a derrota.

O que aconteceu na Libia foi muito século 20. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

In-Justiça do Trabalho

Leio no jornal que um tomógrafo computadorizado, recentemente doado por Eike Batista à Santa Casa será penhorado, para pagar uma dívida trabalhista. No dia seguinte, leio que o aparelho não será penhorado porque a doação não foi feita à Santa Casa, mas a uma fundação.

Tudo errado!

A tal justiça do trabalho (tudo em minúsculas de propósito) manda penhorar um bem DOADO e que tem a finalidade de salvar vidas, para pagar uma indenização de relação de trabalho. A Santa Casa, pelo seu lado, não pode mais aceitar doações e tem que recorrer a subterfúgios para evitar que isto aconteça.

A justiça do trabalho nasceu quando o país ainda tinha uma multidão de subempregados explorados por mercantilistas apaniguados. Hoje, temos juízes paternalistas, que não entenderam que as relações de trabalho evoluíram. Os empregados não são mais hiposuficientes.

Para nos inserir no século 21, a justiça do trabalho precisa acabar. O questionamento trabalhista deve ser tratado como parte do Código Civil. As mesmas regras dadas a quaisquer duas partes autônomas que celebram uma relação pode ser perfeitamente aplicada às relações de trabalho, dadas as condições que hoje imperam nestas relações: é - no mínimo - uma relação de iguais. Na verdade, em muitos casos, a parte hiposuficiente é a empresa.

Um exemplo retirado de uma causa real: um administrador de empresas se associou a duas outras pessoas e fez a sua empresa. Conseguiu desenvolver seu negócio e ter 30 empregados. Seu irmão, engenheiro, se associou a outro engenheiro e fizeram uma empresa com dois empregados. Em um determinado momento, o segundo irmão perguntou se o primeiro irmão não teria um espaço em seu escritório para sublocar. O primeiro irmão consultou seus sócios e estes concordaram. As duas empresas passaram a compartilhar o espaço e dividir as despesas. A relação entre as empresas acabou aí! Como toda empresa de engenharia, o segundo irmão precisou de serviços terceirizados e contratou uma cooperativa para fornecer alguns destes recursos. Um cooperado viu a oportunidade na empresa do outro irmão e se candidatou. Foi contratado. Após trabalhar 1 ano na empresa foi dispensado. Entrou com uma ação e teve reconhecido o vínculo trabalhista desde o tempo em que prestou serviços para a empresa de engenharia, MESMO NÃO HAVENDO QUALQUER LIGAÇÃO ENTRE AS EMPRESAS. Para a justiça do trabalho é um "grupo econômico", mesmo que na Justiça Cível não seja visto desta forma. Dois pesos e duas medidas.

E depois nos perguntam porque estamos sendo ultrapassados por Tigres Asiáticos, pelos demais componentes dos BRIC e ficamos (mesmo com todas as crises que os assolam) cada vez mais distantes dos países que compõem o "1o mundo".

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Viagem no tempo

No dia 7 de abril, inscrevi-me pela internet para a ½ maratona do Rio de Janeiro que acontecerá no dia 17 de julho.

Em 15 de abril viajei para os Estados Unidos. Em Boston, entrei em uma Nike Store e comprei uma braçadeira para poder correr e ouvir música com meu iPod Nano. Quando cheguei na Filadélfia, abri a embalagem e ... o produto estava errado. Era o modelo que servia para o iPod Nano antigo. Fui a outra Nike Store, disse que queria devolver o produto e a moça do caixa, sempre sorrindo, agiu imediatamente. Recebeu o produto, devolveu-me o dinheiro e acrescentou um cupom, me oferecendo um desconto de 20% em um produto que eu escolhesse na loja, qualquer produto, válido pelas próximas duas horas. Aproveitei a oportunidade para comprar um par de tênis para o meu filho. Ao invés de levar de volta meus US$ 25, acabei deixando o dinheiro na loja e acrescentei mais US$ 55.

No dia 15 de maio, já de volta ao Brasil, recebi um email da organização da ½ maratona. Segundo eles, eu teria feito a minha inscrição com desconto por ter participado da Corrida da Ponte em 17/04. Oops! Como posso ter feito isto se eu me inscrevi antes da Corria da Ponte ter acontecido e se no dia 17 de abril eu estava a cerca de 8.000 kms de distância da Ponte Rio-Niterói (é esta Ponte que a Corrida da Ponte percorre)? Foram inflexíveis. Ou eu pagava a diferença (R$ 55,00) ou minha inscrição seria cancelada. Mais pelo desaforo que pelo dinheiro, optei pela segunda alternativa.

Não é a tecnologia envolvida que coloca as pessoas e os países nos séculos 21 ou 19; é a atitude das pessoas. Estas viagens no tempo são muito cansativas!

terça-feira, 15 de março de 2011

Viajar é preciso. Viver não é preciso.

Domingo, 22 de agosto de 1982. Você lembra o que aconteceu nesta data? Eu lembro. Meu amigo Marcos entrou na minha casa e disse: “Você viu que dá para viajar de graça para os Estados Unidos?”. E explicou: “O câmbio oficial está Cr$ 192,00 / US$ 1,00, enquanto o paralelo está CR$ 300,00 / US$ 1,00. Quem viaja pode comprar US$ 2.000,00 pelo câmbio oficial. Um pacote Fly and Drive (passagem, hotel e aluguel de carro) está custando US$ 1.100,00 também pelo dólar oficial. Então: US$ 3.100,00 pelo oficial = Cr$ 595.000,00; US$ 2.000,00 pelo paralelo = R$ 600.000,00. Pronto! Uma semana de graça nos Estados Unidos.”

Antes de prosseguir cabem algumas explicações, principalmente para quem não era nascido àquela época. O Cruzeiro era a moeda oficial do país, representada pelo símbolo Cr$. A inflação era alta no país e as pessoas compravam dólares para preservar o valor do dinheiro. Existia um controle cambial muito rígido e o dólar oficial só podia ser comprado em circunstâncias específicas e em quantidades específicas. Brasileiros não podiam ter cartão de crédito internacional. Não se podia sacar de sua própria conta em viagem ao exterior. Então, as pessoas recorriam aos doleiros. Era ilegal, mas as cotações eram divulgadas diariamente pelos jornais. Coisas de Brasil!

Naquele momento o governo ampliou a quantidade de dólares que podia ser comprada no câmbio oficial por quem ia viajar; de US$ 1.000,00 para US$ 2.000,00. Criou-se a janela de oportunidade que o Marcos identificou.

Eu quis aproveitá-la. Mas, não tinha passaporte e muito menos visto. A cronologia foi a seguinte:
Segunda-feira, 23 de agosto. Falei com meu chefe no trabalho, se eu podia aproveitar o feriado de sete de setembro para passar uma semana fora. Ele permitiu. Liguei para a agência de viagens e fiz a reserva do pacote.
Terça-feira, 24 de agosto. Fui ao doleiro e vendi os US$ 2.000,00 que eu já tinha guardados para outra viagem que eu pensava fazer. No mesmo dia, fui à polícia federal e dei entrada no pedido de passaporte. Ainda na terça-feira, fui à agência de viagens e paguei o pacote.
Quarta-feira, 25 de agosto. Peguei meu passaporte (sim, naquela época ficava pronto em 24 horas) e fui ao consulado americano para dar entrada no pedido de visto.
Quinta-feira, 26 de agosto. Fui pegar o visto (sim, naquela época ficava pronto em 24 horas). Foi negado! Com razão; eu era um garoto de 23 anos, solteiro, sem bens: candidato perfeito a ir e não voltar. Pedi para falar com o cônsul. Ele veio pessoalmente e eu expliquei que não era nada disso. Mostrei que eu cursava o mestrado, que eu tinha um emprego e não tinha nenhum motivo para ficar nos EUA lavando pratos. Ele me concedeu um visto, válido para uma única entrada e com validade para 90 dias. Era só o que eu precisava e agradeci muito.
Sexta-feira, 27 de agosto. Nada aconteceu. Muita tensão. Já imaginou se o governo fizesse uma maxidesvalorização do Cruzeiro (outra coisa bastante comum em tempos de controle cambial)? Todo o esquema iria furar. E eu só podia comprar os dólares com a passagem na mão.
Sábado, 28 de agosto. A passagem chegou. Fui ao Galeão e comprei os dólares na agência do Banco do Brasil que funcionava em regime especial por lá. Tudo pronto!
Terça-feira, 31 de agosto. Embarquei para 8 dias de uma excelente e inesquecível viagem.

Tente fazer isto hoje! Para tirar o passaporte, você precisa iniciar um processo pela Internet, mas agendar a entrega dos documentos para algo entre dois e três meses depois e mais duas semanas até o passaporte ficar pronto. Com o visto, a mesma coisa ... ou pior. Tente conversar pessoalmente com o cônsul! Duvido que você consiga.

Ou seja, graças à Internet e com muita sorte, em APENAS seis meses você estará pronto para viajar.

Às vezes, dá saudades do século vinte.   

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Tragédias no curto e no longo prazo

Nas tragédias percebe-se a diferença no grau de desenvolvimento de um povo. Para ser mais exato, é a transformação de um incidente em tragédia que denuncia a condição de subdesenvolvimento.

Na Austrália aconteceu uma enchente duas vezes pior que a ocorrida em janeiro no estado do Rio de Janeiro. Lá, com duas semanas de antecedência, os moradores das áreas de risco foram avisados e informado o esquema de evacuação e relocação ao qual deveriam obedecer. Resultado: 16 mortos. Isto é um incidente.

No Rio de Janeiro ocorreu o oposto. Apesar dos radares meteorológicos indicarem o que viria, nada foi feito. Resultado mais de 800 mortos oficiais e outros que ainda serão oficializados. Isto é uma tragédia.

Não é preciso tecnologia. O que precisa é atenção e cuidado com a vida humana. O prefeito de Areal soube o que estava acontecendo em um município vizinho. Entendeu o que aconteceria com a sua cidade caso não fizesse nada. Com um carro equipado com alto-falantes evacuou a população sujeita à enchente do rio. Resultado: nenhum morto em Areal.

Nada parece que irá mudar. Passado o luto do momento, todos - autoridades e povo - continuarão agindo da mesma forma.

Todo povo tem sua cota de miseráveis. A análise dos mendigos de um povo indica o seu grau de desenvolvimento. País que só tem mendigos adultos é um país do século 21. A rede de amparo social insere todos os novos membros.

Países - como o Brasil - em que crianças mendigam nas ruas, está ainda no estágio de um livro de Victor Hugo.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Virada de século!

Mais do que o calendário, grandes eventos marcam a mudança das eras. O século 19 acabou com o início da Primeira Guerra Mundial. O século 21 começou quando as Torres Gêmeas caíram. Em alguns casos, estes acontecimentos desencadeiam as mudanças. Em outros, apenas claramente demonstram que as mudanças já ocorreram.

Este ano se inicia no Brasil, marcado pela posse de Dilma Roussef. Primeira mulher a ocupar o cargo, sucede ao primeiro operário eleito para o cargo. Indo além: seu antecessor cumpriu integralmente dois mandatos para os quais foi democraticamente eleito, após o mesmo ter acontecido com Fernando Henrique Cardoso.

São 16 anos sem sobressaltos. Antes disto, tivemos uma ditadura militar que foi sucedida por uma eleição indireta, em que o presidente eleito faleceu antes de tomar posse, deixando o cargo para o seu vice José Sarney. Este foi sucedido por Fernando Collor de Mello, que não completou  o mandato por ter sofrido “impeachment”. O mandato foi completado por Itamar Franco, seu vice.

A sucessão de nomes do parágrafo anterior – todos ocupam atualmente o cargo de senador da República – dá a pista que aos eventos narrados anteriormente falta o tom de mudança que poderia indicar que o Brasil também evoluiu. Pior que isto, o processo de formação do governo foi muito semelhante à disputa por favores imperiais que marcou o Império Brasileiro.

Por tudo isto, só me resta desejar a todos um feliz ”mil e oitocentos e duzentos e onze”!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Choque de eras

Para quem não me conhece muito, eu sou um Leitor. Assim mesmo, com a primeira letra maiúscula. Eu gosto de ler; é um dos meus divertimentos preferidos.

Logo, eu precisava de um leitor de livros eletrônicos.

Ao pesquisar, tive logo uma primeira decisão a tomar: comprar um leitor nacional ou um importado. O preço logo do aparelho deixou os leitores nacionais em desvantagem. O aparelho do Gato Sabido (Cool-er) custa R$ 599,00 e o da Positivo (Alfa) custa R$ 899,00. O Kindle da Amazon custa US$ 139,00 (R$ 243,00) e o Nook da Barnes & Noble custa US$ 149,00 (R$ 260,00). Ou seja, o mais barato dentre os principais nacionais custa mais do que o dobro do preço do mais caro entre os importados considerados.

Mas, a grande prova do atraso tupiniquim vem no próximo quesito: o preço dos livros. Enquanto desde o lançamento, um ebook tem um preço de cerca de 50% da versão impressa, por aqui este desconto é tão irrisório quanto 6% (por exemplo, 1822 de Laurentino Gomes custa R$ 28,05 no Gato Sabido e R$ 29,90 para a versão impressa no Submarino).

Isto significa que um leitor eletrônico americano está pago com apenas 15 livros, enquanto um leitor eletrônico brasileiro precisa de 300 livros para se pagar. Para isto, é necessário ser um LEITOR, com todas as letras maiúsculas. Só mesmo um Mindlin, que ao longo de mais de 90 anos de vida formou uma coleção com cerca de 17.000 livros conseguiria ver o seu investimento em um leitor eletrônico nacional retornar em menos de um ano. No meu ritmo de 1 livro / semana, seriam necessários seis anos: tempo mais que suficiente para que a tecnologia evolua e justifique adquirir outro aparelho (tentando obviamente não perder o acervo já constituído).

Finalmente, decidi-me pelo Kindle e recebi-o na semana passada. Já li dois livros, estou lendo outros 3 e tenho mais 29 na fila. De todos estes, apenas um foi comprado. Todos os demais estão disponíveis "for free". E não estou falando de autores independentes. Lewis Carroll, Alexandre Dumas, Aristófanes e outros próceres da literatura mundial (todos mortos, é verdade!).

O livro que comprei acabou gerando outro exemplo do atraso local. A autora é a Noga Sklar, que resolveu formar uma editora especializada em livros eletrônicos. Tudo muito high-tech. Mas, em seu blog (www.noga.blog.br) ela conta algumas de suas desventuras com a burocracia nacional. Por exemplo: um dos quesitos do Ponto Frio para que ela pudesse vender seus livros eletrônicos na loja virtual é ter uma sede comercial em que o Ponto Frio possa fiscalizar seus estoques. Oops! Estoque de que? Bits e Bytes? Ou, quem sabe, de suco de cérebro?

E lá vamos nós: rumo ao século 20!