segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Eike e Brasil: o homem certo no lugar certo. Pena que ambos estão atrasados no tempo.

A segunda parte do século 19 foi conhecida nos Estados Unidos como a "Gilded Age"; a época dos "Tycoons". Nomes como Rockefeller, Ford, Morgan e Carnegie entre muitos outros aproveitaram as condições institucionais, econômicas e tecnológicas para construir enormes fortunas, ao mesmo tempo em que lançaram as bases para o predomínio mundial da indústria americana.

O Brasil teve também o seu "Tycoon" no Barão de Mauá. Ele é definido como empresário, industrial, banqueiro e político. No auge - em 1867 - sua fortuna contabilizava 115 mil contos de réis, enquanto o orçamento do Império era de 97 mil contos de réis para o mesmo ano. Em valores atualizados, estima-se que o valor corresponderia a 60 bilhões de dólares. Diversamente dos seus correlatos do hemisfério norte, não deixou um legado na forma de empresas estabelecidas. Nem em dinheiro, diga-se de passagem.

Pulamos agora para o século 21. Com uma fortuna estimada em 40 bilhões de dólares, o homem mais rico do mundo (mesmo depois da crise, estouro de bolha, etc.) é Bill Gates. O brasileiro mais bem colocado na lista dos maiores bilionários do mundo é Eike Batista, com 7,5 bilhões de dólares.

É irrelevante comparar o tamanho das fortunas. Porém, é bastante importante comparar suas origens. Enquanto a fortuna de Gates é originada de produtos predominantemente imateriais (software), a fortuna de Batista vem toda de ramos de negócio ligados à exploração e movimentação de itens da infra-estrutura industrial: petróleo, mineração e logística são alguns exemplos.

O resultado americano não é acidental. Dentre os demais figurantes da lista encontramos Lawrence Ellison (software), Michael Bloomberg (informação), Larry Page (Google - como definir o que é o Google?) e assim por diante.

Nada desmerece o resultado de Batista, muito pelo contrário. Trabalhador e visionário são apenas alguns dos muitos adjetivos que podem ser aplicados a ele. Correm várias histórias bem fundadas de seu trabalho no sentido de gerar e preservar valor para aqueles que acreditam nele, inclusive usando recursos próprios para manter o valor das ações de suas empresas em poder de terceiros.

Eike está fazendo agora, o que já deveria ter sido feito no Brasil no século passado. Deveríamos ter passado por esta etapa há muito tempo.

Porém, mais uma vez estamos desperdiçando oportunidades. Neste momento, as condições não são favoráveis a empreendedores dos ramos que geraram os bilionários americanos do momento. E piores ainda para aqueles que no Brasil tentam desenvolver trabalhos nos ramos que gerarão os bilionários americanos das próximas décadas.

Nanotecnologia e bioengenharia são alguns destes ramos. Outros ramos podem já existir e ainda não ser possível de catalogar (mais uma vez, onde enquadrar o Google?). Somente iniciadas com a letra A, estão listadas na bolsa americana 25 companhias de biotecnologia. Com capital superior a 5 bilhões de dólares (mesmo depois da crise, estouro de bolha, etc.) são 8.

Precisamos passar a esta nova etapa.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Cartório: a prova que os dinossauros continuam vivos e reinarão por um longo tempo..

Renovei um eCNPJ. Para quem não sabe, é um mecanismo digital de idenificação perante a Receita Federal, obrigatóro para todas as empresas.

Moderno, não é?

Definitivamente, NÃO! É uma atrocidade medieval transposta para o mundo virtual.

O processo exigiu meu comparecimento pessoal perante um desconhecido levando alguns documentos (originais e cópias, naturalmente). Após um processo que começou com um atraso de mais de meia hora, demorou quase uma hora, recebi outros papéis para assinar (duas vias, naturalmente) e finalmente, sai de lá com um token virtual. Nada mais que um pendrive contendo um certificado digital (será que lá dentro também tem um original e cópia?).

A idéia por trás da estrutura cartorária é a da construção de uma rede de confiança. Iniciou da seguinte maneira. As pessoas de uma cidade confiavam em um determinado indivíduo, acima de qualquer suspeita. Então, passavam a confiar umas nas outras, se este indivíduo especial atestasse a veracidade dos atos praticados pelas demais pessoas. Este conceito se estendeu, a partir do momento em que esta pessoa especial passou a estabelecer o mesmo tipo de relacionamento de confiança com outras pessoas especiais de sua e de outras cidades.

É um derivado de um tempo em que as distâncias eram maiores e as comunicações mais lentas.

Atualmente, isto é absolutamente e cabe frisar enfaticamente, ABSOLUTAMENTE, desnecessário. Todos os mecanismos necessários para que a veracidade de um ato ou de uma assinatura estão presentes, sem que haja a necessidade de atestados desta (ou de qualquer outra) natureza.

Surpreendentemente, ou talvez nem tão surpreendentemente assim, ao invés de usar os recursos modernos para suprimir este tipo de penduricalho, o que se tem feito é usar a tecnologia para reforçá-lo. eCPF, eCNPJ e outras aparentes modernidades, são na verdade a mera transposição para um mundo virtual desta mesma atitude, necessária apenas devido às limitações de uma época.

E, com isto, vamos em frente, gastando tempo, dinheiro, disposição e outros ativos, para cumprir exigências de uma burocracia que luta com todas as armas à mão para evitar sua extinção. E vem conseguindo isto com enorme sucesso. Provavemente, sobreviverá à extinçãoda própria espécie humana. Quando não estivermos mais aqui, os certificados digitais serão os novos donos do planeta.