segunda-feira, 26 de abril de 2010

Bons mergulhadores para tempo calmo. Já, se o tempo fecha ...

Eu me lembro muito bem do meu curso de mergulho. Para simplesmente mergulhar (e voltar à superfície) não há muito para aprender. O tempo todo se deve respirar continuamente. Nunca prender a respiração. Na descida, há que continuamente compensar o aumento da pressão externa (no ouvido e na máscara). E pronto. É só isto o que você precisa saber.


Desde que, é claro, o dia esteja tranquilo, você esteja em plena forma e sem nenhum problema de saúde, a água esteja clara, o seu equipamento esteja perfeito, o seu instrutor esteja por perto, o mergulho não passe de 10 metros, não aconteça nada assustador e também absolutamente nada inesperado. Se for só tudo isso (como dizem os Cassetas), não há mais nada a aprender. O curso poderia ter terminado na primeira meia hora.

As outras cinco semanas do curso nos ensinaram a agir apropriadamente quando alguma das condições perfeitas deixa de ocorrer. Suponha que o seu companheiro de mergulho esbarre em você e a máscara saia do seu rosto. Ou que alguma peça do equipamento se rompa ou apresente defeito. Estas e outras situações são simuladas no curso para que os alunos aprendam o que fazer nos casos de emergência.

Isto foi há quase 30 anos atrás. De lá para cá, mais de 100 horas de mergulho por ano. Outros cursos, como mergulho noturno, em cavernas, busca e salvamento e mergulho profundo.

Quantas vezes estive em situação de emergência? Nenhuma. É claro que teve uma vez em que a alça da minha máscara arrebentou. Em outra, meu companheiro teve uma câimbra. Em outra ainda, esbarrei com um cardume de arraias de mais de 3 metros cada. Teve também aquela vez em que a âncora do barco se soltou e tivemos que nadar por uma hora e meia até alcançá-lo. E assim por diante. Sem contar os diversos cortes e machucados diretamente ligados a uma atividade movimentada ao ar livre. Novamente, em nenhuma destas ocasiões, algo inesperado transformou-se em uma emergência, ou ainda pior em uma tragédia.

O que isto tem a ver com o tema deste blog. Tudo. Nossos administradores, em todos os níveis, comportam-se como mergulhadores que abandonaram o curso após a primeira meia hora.

É fácil perceber que o que separa um contratempo de uma tragédia é um pequeno conjunto de despreparos. Tomemos o acidente da TAM em Congonhas como exemplo. Manetes na posição errada com um reverso pinado já haviam sido causa de dois acidentes anteriormente. Porém, nas duas ocasiões ocorreram apenas danos materiais e ferimentos leves. O que transformou um acidente banal em uma tragédia foram as condições da pista. E depois? A reação das autoridades foi patética. Jogo de empurra para se livrar de responsabilidades e uma indigna dancinha festiva em meio à dor, quando o bode expiatório foi localizado.

E quando chove muito? Igual. E quando não chove nada? Mais uma vez, igual. Com o agravante do bode expiatório ser São Pedro. Um pouco de realidade, por favor. O Santo manda chuva foi apenas o causador da água que caiu. O causador da tragédia foi outro manda chuva.

Antigamente era assim mesmo. Por falta de conhecimento, porque os administradores eram herdeiros de seus feudos ou por qualquer outro motivo que fosse, era comum que os líderes chegassem ao poder despreparados ou apenas parcialmente preparados.

Nada mudou por aqui. Já passou da hora.

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