segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Mão de obra. Recursos Humanos. Talentos.

Na postagem anterior falei especificamente sobre a Carteira de Trabalho. Chegou a hora de falar sobre a legislação trabalhista brasileira.

É tão anacrônica quanto o seu símbolo. O conjunto de leis que regem as relações de trabalho entre empregadores e empregados foi estabelecido em uma época em que as pessoas eram tratadas como mão de obra. O nome diz tudo. O que interessa é a mão; de forma nenhuma é o cérebro.

De lá para cá, o que evoluiu seguiu na mesma direção. As "conquistas" dos trabalhadores consistem na verdade em um conjunto de proteções contra possíveis abusos por parte dos vilões de sempre: os empregadores. Isto está errado? Não em sua essência. Como em toda platitude, o ponto de partida é uma afirmação irretorquível, que colocaria o seu opositor do lado dos carrascos.

Mas foi só isto que evoluiu mesmo? Quem precisa de proteção atualmente?

No mundo industrial, a realidade pouco mudou. De fato, em função da supremacia da necessidade da mão e da abundância desta mesma mão, quem só tem isto para oferecer precisa de um arcabouço de proteção. No máximo, a mão de obra evoluiu para se tornar um recurso humano.

Porém, no mundo pós-industrial a realidade é outra. O termo talento aplica-se de verdade a todos os setores em que o cérebro é o grande insumo a ser  aplicado. Nestes casos, que incluem alta tecnologia em suas diversas formas (tecnologia da informação e biotecnologia são bons exemplos) e outras formas de expressão criativa, o hiposuficiente passa a ser o empregador e este é que devia receber proteção e ser assistido pela legislação.

Isto inclui o próprio governo brasileiro. Todos os anos, através de órgãos de fomento à pesquisa: CAPES, CNPQ e FINEP, várias pessoas recebem bolsas para estudar no exterior. O único compromisso que se pede a estas pessoas é que voltem ao país após a conclusão de seus estudos e aqui apliquem o que aprenderam às custas dos cofres públicos. Muitos destes, sob o argumento de terem conseguido salários melhores que os oferecidos aqui, simplemsente ficam onde estudaram e não pagam suas dívidas. É justo?

Pelo lado das empresas brasileiras que atuam (ou pelo menos tentam) de forma a privilegiar o cérebro, o problema é de mesma natureza. Investe-se na formação do talento; pagam-se cursos e obtenção de certificados e o que se assiste é o talento ir oferecer seu conhecimento a um concorrente, oferecendo em troca, no máximo, o cumprimento de um aviso prévio remunerado de 30 dias. E não adianta recorrer às leis ou à Justiça do Trabalho. Invariavelmente perde-se, e ainda corre-se o risco de ver os autos serem encaminhados ao INSS, que exigirá que o valor investido em cursos seja incorporado ao salário para efeito de cálculo de contribuições. É justo?

Respondendo às perguntas acima: pode ou não ser justo sob diferentes alegações. Ainda assim, é velho e ultrapassado e vai nos distanciar ainda mais dos países que já chegaram ao século 21.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Carteira de Trabalho. Peça de museu.

Não me entendam mal. Não estou atacando o trabalho formal ou pregando a precarização da relação de trabalho. Pelo menos não nesta postagem.


Aqui estou me referindo especificamente àquela caderneta escolar que é necessária para que as pessoas em pleno Brasil do século 21, possam buscar um trabalho formal, remunerado, em uma relação patrão-empregado.

Poucas coisas são mais arcaicas que obrigar alguém a manter um histórico de carreira, que excede 30 anos na maioria dos casos, em um livreto que só pode ser preenchido à mão.

Ao ser contratado, ao demitir-se ou ser demitido e pelo menos uma vez por ano, lá vai o livreto para a área de pessoal da empresa, para que sejam anotadas as mudanças de cargo, salário, contribuição para sindicato, férias e outras observações "relevantes".

Parece cena de filme. Sala esfumaçada. Guardas soturnos. Um sujeito mal encarado sentado atrás de uma mesa é o responsável pela fumaça. O herói é trazido e para em frente à mesa. O mal encarado ordena em voz imperiosa: seus papéis. O herói tira do bolso a Carteira de Trabalho e a entrega ao burocrata. Dependendo do filme, a Carteira pode ser verdadeira ou falsa. No primeiro caso, trata-se de um inocente pressionado pelas rodas de um sistema injusto e cruel. No segundo caso, é um campeão da liberdade desafiando o mesmo sistema. A tensão é palpável. Que perversidade acontecerá com o pobre inocente? O herói conseguirá romper as redes que o aprisionam?

O filme pode se passar em qualquer lugar do planeta, mas uma coisa é certa. Trata-se do século 20.

domingo, 20 de setembro de 2009

Pré-sal. Discussão pré-histórica.

A descoberta de petróleo sob a camada de sal está sendo alvo de campanhas de todas as naturezas. Renascimento da idéia de monopólio estatal. Reafirmação de nacionalismo. Redistribuição da renda que ainda virá a ser gerada. Existem até mesmo defensores intransigentes da manutenção do modelo existente.

De todos os lados, o foco da discussão é o que fazer com esta hipotética montanha de dinheiro.

Uma vez que a riqueza seja efetivamente produzida e deixe de ser apenas teoria, o importante é que haja uma distribuição adequada de seus benefícios. Qualquer modelo estável e honesto é bom. É importante que todos tenham consciência de quais os retornos possíveis nos diferentes cenários e que as regras - claras - sejam respeitadas.

Estamos cercados de exemplos de movimentos na direção oposta e suas consequencias. O boliviano Evo Morales quis mudar tudo a pretexto do gás ser boliviano. Atualmente, o Brasil está queimando gás devido ao excesso de produção e a Bolívia não recebe mais sequer o que estava recebendo antes da posse de seu presidente.

O que vale a pena discutir é: como será o pós-óleo?

Recentemente, O Globo apresentou uma matéria comparando os cenários da Noruega e das Filipinas, países em que os campos amadureceram e hoje já não são capazes de produzir como antes. As Filipinas se afundaram vítimas de sua corruptocracia, deixaram de ser exportadores e hoje importam petróleo. A Noruega investiu no que devia: educação de seu povo. 25% da receita atual da Noruega ligada ao petróleo é resultado da exportação de serviços. 225 PhDs dedicam-se ao avanço tecnológico neste segmento.

Um dia o petróleo acabará. Da mesma forma que o carvão, que o urânio, que o ferro, que a bauxita e todas as outras "riquezas" que abundam por aqui.

A única verdadeira fonte inesgotável de riqueza é o intelecto. Investir em seu desenvolvimento é a verdadeira forma de acabar com a dependência. Com tudo o que se possa falar mal dos americanos, esta lição foi aprendida por eles há várias gerações. Sem aprofundar muito, basta ver o que se produz na "Ivy League", conjunto de oito universidades do noroeste dos EUA. São centenas de prêmios Nobel em todas as especialidades.

Os royalties gerados pela educação são muito maiores e duradouros que aqueles que possam vir a ser gerados pelo pré-sal, mesmo que as reservas sejam muito maiores que se apregoa.

Vamos parar de discutir o assunto com os olhos do passado e entremos de fato no século 21.

sábado, 19 de setembro de 2009

Não basta minha palavra. Tenho que provar que moro.

Eu tinha a intenção de começar o blog, contando um pouco sobre o jantar que o originou. Após concluir a configuração e antes de inciar o primeiro post, resolvi ir buscar um DVD para assistir nesta tarde de sábado.

Porém, fui atropelado pela realidade e tenho a oportunidade de abrir com chave de ouro.

A titular da Blockbuster é minha mulher. Isto nunca foi problema. Sempre foi suficiente apresentar a carteira para poder retirar o filme desejado. Desta vez foi diferente. A atendente pediu minha identidade e foi consultar um outro computador. Após alguns minutos, ela voltou e disse que não havia nenhum dependente cadastrado. Vendo que não adiantaria discutir, eu me propus a abrir uma outra conta em meu nome. A atendente nem piscou e emendou: "Um comprovante de residência, por favor". Foi quando eu desisti, fui a outra locadora, localizada a 2 quadras de distância e na qual sou o titular, e retirei o filme escolhido.

A Blockbuster perdeu o valor de uma locação. Quantas mais não estará perdendo por pedir um "Comprovante de Residência" para candidatos a novos clientes? Por que precisa ser assim? Não basta que eu informe meu endereço? Posso até supor que se este blog fosse suficientemente importante, algum representante da empresa apresentaria uma explicação perfeitamente válida para esta exigência, à luz de algum fator conjuntural, contratual, tradicional, espiritual e etcétera e tal.

Mas não consigo engolir isto. Nada será capaz de me convencer que uma empresa não ganharia muito mais, descontaminando seus processos deste tipo de ranço cartorial.

E lá vamos nós para o século 20.