domingo, 6 de maio de 2012

Suprema Cortesia com o chapéu alheio

Houve um tempo em que se usava chapéu. E o hábito de retirar levemente o chapéu da cabeça para cumprimentar as pessoas. Com o tempo, surgiu a expressão "fazer cortesia com o chapéu alheio", significando usar coisas de terceiros para aparecer.

O DEM arguiu a constitucionalidade do sistema de cotas raciais da UNB. Matéria constitucional. Coube ao Supremo Tribunal Federal manifestar-se. E o fez. Por unanimidade julgou constitucional o assunto.

Louvou-se o posicionamento do Supremo e considerou-se histórico o placar. Nada mais falacioso. A pergunta foi: o sistema de cotas raciais é contra a constituição? A resposta é simples: NÃO! E a unanimidade indica apenas que a resposta é incontroversa.

Se o resultado fosse 7 x 3 ou 6 x 4, o resultado mereceria atenção e comentários. Neste caso, poderíamos considerar que os ministros precisaram interpretar o que está escrito na Constituição à luz do estado atual das instituições e a evolução desejada da sociedade brasileira.

Mas não foi isto o que aconteceu. O resultado foi 10 x 0. Não há dúvida. Não há interpretação. Está escrito na Constituição para quem souber ler. O sistema de cotas pode ser adotado pelas universidades públicas brasileiras.

O ministro Ayres Brito disse: "O Brasil tem mais um motivo para se olhar no espelho da história e não corar de vergonha". Vergonha deveria ter o ministro de dizer isto. Se estava na Constituição, bastava o brasileiro mostrá-la a quem quer que fosse e orgulhar-se.

O ministro Luiz Fux disse: "A opressão racial dos anos da sociedade escravocrata brasileira deixou cicatrizes que se refletem no campo da escolaridade". Difícil encontrar platitude maior na história recente do Supremo.

A ministra Rosa Weber disse: "A representatividade, na pirâmide social, não está equilibrada. Se os negros não chegam à universidade, por óbvio não compartilham com igualdade de condições das mesmas chances dos brancos.". Se é óbvio ministra, bastava cravar um xis na opção correta.

Nem tudo foram espinhos.

A ministra Carmem Lucia disse: "A melhor opção é ter uma sociedade na qual todo mundo seja livre para ser o que quiser. Isso é uma etapa, um processo, uma necessidade em uma sociedade onde isso não aconteceu naturalmente". Muito lúcido. Independente de ser constitucional, a ministra indica que haver um sistema de cotas não é a solução definitiva para um problema histórico. É parte do caminho.

O ministro Joaquim Barbosa disse: "Aos esforços de uns em prol da concretização da igualdade que contraponham os interesses de outros na manutenção do status quo, é natural que as ações afirmativas sofram o influxo dessas forças contrapostas e atraiam resistência da parte daqueles que historicamente se beneficiam da discriminação de que são vítimas os grupos minoritários. Ações afirmativas têm como objetivo neutralizar os efeitos perversos da discriminação racial". Este foi um belo puxão de orelha no DEM. Gostem os DEMistas ou não, está claro na Constituição. Então, parem de nos fazer perder tempo votando questões óbvias.

Em tempo. Eu não gosto do sistema de cotas. Questiono os "tribunais raciais". Mas, imperfeito como toda criação humana, é constitucional. Portanto, que haja. Vamos torcer para que os resultados sejam positivos e que chegue o momento em que a sociedade o dispense. 

terça-feira, 6 de março de 2012

Evolução ou extinção.

Este é o dilema de todos os seres vivos. Alguns, mais adaptados, conseguem sobreviver por mais tempo. Outros, não.

Pássaro Dodô. Aquele bicho gordo e tolo, que nós conhecemos da "Alice no País das Maravilhas". Vivia gordo, tolo e feliz nas Ilhas Mauricio, até a ilha ser descoberta em 1505. Gordo e tolo virou presa fácil do ser humano. O último morreu (feliz?) em 1681.

O mesmo acontece com os seres humanos. Podemos vir a ser extintos de verdade, se não cuidarmos de nosso habitat. Os conservacionistas falam em "salvar o planeta". Com certeza, ele sobreviverá a nós. É uma questão de sabermos até quando, nós estaremos nele.

Com as profissões, o mesmo ocorre. Ainda é possível existirem fábricas de velas? Claro! Porém, não da mesma forma e no mesmo volume que existiam antes de ser inventada a lâmpada elétrica.

Delfim Neto disse: "A empregada doméstica, infelizmente, não existe mais. Quem teve este animal, teve. Quem não teve, nunca mais vai ter". A escolha das palavras foi extremamente infeliz. Mas, o sentido está correto. E será bom para os dois lados: um lado da estrutura social deverá abandonar o espírito de senhor feudal, porque haverá oportunidade de desenvolvimento social para que o outro lado se qualifique e não precise ser servilizado.

O problema brasileiro é fazer isto por linhas tortas. A empregada doméstica de um conhecido pediu demissão. O motivo alegado foi: "Não preciso mais trabalhar. Meu marido foi preso e eu agora recebo Auxílio Reclusão de mais de R$ 600,00".

Já imaginou se os políticos brasileiros vierem a ser presos? Quanto será que teremos que pagar de auxílio reclusão para as famílias deles? Não pode dar certo.

Seremos nós os próximos Pássaro Dodô?

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Tem gente que não aprende!

Os anos 80 foram muito difíceis para os países do chamado Terceiro Mundo. Altamente endividados, recorreram a todas as espécies de planos econômicos, com o objetivo de resolver suas dificuldades.

Aventuras de todas as espécies foram tentadas. Entre vários cortes de 3 zeros, o Brasil passou pelo Plano Cruzado e a continuação, o Cruzado 2. Como todo filme ruim, a continuação foi muito pior que o original. O mesmo aconteceu com os Planos Verão 1 e 2. O pior de todos foi o "Tiro no Tigre" ou qualquer outro nome que se queira dar ao Plano Collor.

Até que finalmente, o Plano Real começou a colocar ordem na casa. Não vem ao caso, discutir o que deu errado nos planos anteriores e o que foi feito de diferente nesta última tentativa. O que importa é que com todas as correções de rumo que foram necessárias e com alguns retrocessos que acontecerem, algumas conquistas ficaram.

Precisamos ficar atentos para evitar as armadilhas que o excesso de euforia que inundou o país depois que a crise iniciada em 2008 (e que não parece ter hora para acabar) colocou as economias desenvolvidas em xeque.

Um excelente sinal de alerta é o que está acontecendo com os nossos vizinhos argentinos. Passaram por muita coisa parecida com o que nós passamos, tiveram momentos em que pareceram ter colocado todos os seus problemas para trás, até que, de medida errada em medida errada, voltaram no tempo. Hoje, brigam com índices de inflação verdadeiros e mentirosos, brigam com a imprensa que malevolamente mostra uma realidade feia, brigam, brigam, brigam e cada vez se atolam mais.

Precisamos aprender para não repetir os erros que já fizemos antes. Precisamos parar de cometer alguns erros que estamos cometendo. Estamos surfando uma boa onda, mas estamos sacrificando parte de nosso futuro por um presente de aparências.

Precisamos aprender!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Começa o ano. Tudo igual

Começou 2012. É um período em que renova-se a esperança que algo irá mudar para melhor.

Pelo que vemos nos jornais, irá continuar tudo igual.

Pelo pior lado, recomeçam as tragédias causadas pelas águas do verão. Se as consequencias forem menores, será porque as chuvas foram clementes. De forma nenhuma será porque algo mudou. O foco da discussão é o dinheiro. O que foi liberado, o que foi desviado e o que de fato chegou ao destino planejado. Ainda assim, dinheiro é apenas um recurso. No período da seca, as pessoas que sofreram voltaram aos mesmos locais e reconstruíram (ou nem mesmo isso) seus habitats. E ficaram rezando. E fica combinado que quando alguém morrer, a culpa é de São Pedro.

No resto, também fica tudo igual. Bicheiros são presos e soltos. Os tamborins esquentam. Políticos e juízes são denunciados. Os primeiros renunciam. Nada acontece com os segundos. Você ficou com pena dos primeiros? Eles voltam na próxima eleição. Programas são faustosamente anunciados. Nada acontece na prática. A bolsa sobe. A bolsa desce. Escândalo no ENEM.

A mente estreita, se estreita cada vez mais. Começa-se a torcer para que pelo menos não piore.

Não se preocupe. Nosso país evoluiu muito. Em breve, com um pouco de sorte, finalmente chegaremos ao século 20.

Enquanto isto: ÁGUA!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

ENEM ... de graça!

Os processos seletivos no Brasil são unidimensionais. Só o que interessa é o resultado de um exame. Faz-se a prova, forma-se uma fila dos graus e ... voilá! Temos uma nova fornada de excelentes profissionais em gestação. Certo? É óbvio que não.

Será que o aluno tem aptidão para aquele curso? Será que terá o comprometimento necessário para conclui-lo? Este aluno se adaptará à instituição, sua rotina, sua disciplina e sua exigência? O resultado é uma felicidade na entrada e evasão ao longo do curso. Ou, profissionais infelizes com sua escolha inicial, mas que estão presos na armadilha da impossibilidade de trocar de carreira no meio do curso.

Muito diferente do que acontece nas instituições de excelência do mundo. Para entrar em Harvard, no MIT, em Columbia, não basta um bom resultado no SAT (o ENEM deles). É claro que o resultado do SAT deve ser excepcional para que alguém mantenha o sonho de estudar em uma destas instituições. Mas é necessário preencher uma ficha, onde consta sua história de participação na comunidade e seus valores. Tudo isto será confirmado em entrevistas e são aceitos aqueles que têm uma grande chance de concluir o curso e se tornarem profissionais que irão honrar sua Alma Mater. E, mesmo aqueles que não concluem - Bill Gates e Steve Jobs são alguns exemplos - têm méritos notórios.

Além disto. O curso superior por lá é dividido em duas partes: o Minor e o Major. No Minor estudam-se as matérias básicas, que podem ser reaproveitadas na hora de escolher um Major (Law School, a Faculdade de Direito, por exemplo).

O que nos leva ao sistema brasileiro e ao ENEM.

Quando foi criado, o ENEM tinha o objetivo de avaliar o aprendizado dos alunos do Ensino Médio. Serviria para que o ensino fosse aperfeiçoado. As notas individuais não eram importantes.

Era sábio!

A partir de algum momento, algumas universidades passaram a usar o resultado do ENEM na seleção de seus alunos. A PUC-RIO, por exemplo, passou a direcionar algumas vagas para alunos que tivessem desempenho excepcional. Quem tirasse, acima de 8,0 nem precisava fazer vestibular. A prova passou a ser uma oportunidade a mais para quem demonstrasse conhecimento excepcional. Não chega a ser verdadeiramente multidimensional, mas foi um primeiro passo.

Outro detalhe interessante da PUC-RIO. Um aluno entra para o CTC (Centro Técnico Científico) e ao final do 2o ano decide se quer estudar Engenharia (e qual Engenharia), Matemática ou Física.

Foi sábio!

De repente, o caldo entornou. Os gênios do MEC da gestão iniciada em 2002, coerentes com o princípio do "Tudo o que nós fazemos é melhor", teve a brilhante ideia de SUBSTITUIR o vestibular pelo resultado do ENEM. É óbvio, que só podia dar errado. E deu. E continua dando. A partir da sábia decisão, nunca mais o ENEM conseguiu ser aplicado sem sobressaltos. Vazamentos, fraudes, liminares na justiça, choros ... e tudo o mais que demonstra o extraordinário erro do modelo.

Só dará certo quando tornarmos o Brasil um país multidimensional e o nosso Governo entender que existe vida (mais) inteligente do lado de fora de suas paredes.

sábado, 22 de outubro de 2011

O mundo também evolui ... na direção errada.

Nunca fui fã do Kaddafi. E de nenhum ditador, diga-se de passagem. Mas, o que foi feito com ele é injustificável. E não me refiro à sua morte; sua presença não fará falta ao mundo.

Depois da 2a Guerra Mundial começou a Guerra Fria. A OTAN foi formada para enfrentar a Cortina de Ferro. Cada um dos blocos apoiava seus partidários nas diversas disputas locais que se sucederam. Testemunhamos a Guerra da Coreia, a Guerra do Vietnã, a tomada do poder em Cuba por Fidel Castro, os diversos golpes de direita e esquerda da América Latina, e mais não sei quantas outras batalhas. Às vezes interesses econômicos relevantes; outras vezes puro conflito ideológico.

Até que um dos blocos - a Cortina de Ferro - perdeu a guerra. Agora, só existe um dos lados e ficou claro que as práticas continuam as mesmas. Porém, sem oposição. Se a OTAN resolve apoiar um dos lados em luta, ao outro resta contar o tempo até a derrota.

O que aconteceu na Libia foi muito século 20. 

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

In-Justiça do Trabalho

Leio no jornal que um tomógrafo computadorizado, recentemente doado por Eike Batista à Santa Casa será penhorado, para pagar uma dívida trabalhista. No dia seguinte, leio que o aparelho não será penhorado porque a doação não foi feita à Santa Casa, mas a uma fundação.

Tudo errado!

A tal justiça do trabalho (tudo em minúsculas de propósito) manda penhorar um bem DOADO e que tem a finalidade de salvar vidas, para pagar uma indenização de relação de trabalho. A Santa Casa, pelo seu lado, não pode mais aceitar doações e tem que recorrer a subterfúgios para evitar que isto aconteça.

A justiça do trabalho nasceu quando o país ainda tinha uma multidão de subempregados explorados por mercantilistas apaniguados. Hoje, temos juízes paternalistas, que não entenderam que as relações de trabalho evoluíram. Os empregados não são mais hiposuficientes.

Para nos inserir no século 21, a justiça do trabalho precisa acabar. O questionamento trabalhista deve ser tratado como parte do Código Civil. As mesmas regras dadas a quaisquer duas partes autônomas que celebram uma relação pode ser perfeitamente aplicada às relações de trabalho, dadas as condições que hoje imperam nestas relações: é - no mínimo - uma relação de iguais. Na verdade, em muitos casos, a parte hiposuficiente é a empresa.

Um exemplo retirado de uma causa real: um administrador de empresas se associou a duas outras pessoas e fez a sua empresa. Conseguiu desenvolver seu negócio e ter 30 empregados. Seu irmão, engenheiro, se associou a outro engenheiro e fizeram uma empresa com dois empregados. Em um determinado momento, o segundo irmão perguntou se o primeiro irmão não teria um espaço em seu escritório para sublocar. O primeiro irmão consultou seus sócios e estes concordaram. As duas empresas passaram a compartilhar o espaço e dividir as despesas. A relação entre as empresas acabou aí! Como toda empresa de engenharia, o segundo irmão precisou de serviços terceirizados e contratou uma cooperativa para fornecer alguns destes recursos. Um cooperado viu a oportunidade na empresa do outro irmão e se candidatou. Foi contratado. Após trabalhar 1 ano na empresa foi dispensado. Entrou com uma ação e teve reconhecido o vínculo trabalhista desde o tempo em que prestou serviços para a empresa de engenharia, MESMO NÃO HAVENDO QUALQUER LIGAÇÃO ENTRE AS EMPRESAS. Para a justiça do trabalho é um "grupo econômico", mesmo que na Justiça Cível não seja visto desta forma. Dois pesos e duas medidas.

E depois nos perguntam porque estamos sendo ultrapassados por Tigres Asiáticos, pelos demais componentes dos BRIC e ficamos (mesmo com todas as crises que os assolam) cada vez mais distantes dos países que compõem o "1o mundo".

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Viagem no tempo

No dia 7 de abril, inscrevi-me pela internet para a ½ maratona do Rio de Janeiro que acontecerá no dia 17 de julho.

Em 15 de abril viajei para os Estados Unidos. Em Boston, entrei em uma Nike Store e comprei uma braçadeira para poder correr e ouvir música com meu iPod Nano. Quando cheguei na Filadélfia, abri a embalagem e ... o produto estava errado. Era o modelo que servia para o iPod Nano antigo. Fui a outra Nike Store, disse que queria devolver o produto e a moça do caixa, sempre sorrindo, agiu imediatamente. Recebeu o produto, devolveu-me o dinheiro e acrescentou um cupom, me oferecendo um desconto de 20% em um produto que eu escolhesse na loja, qualquer produto, válido pelas próximas duas horas. Aproveitei a oportunidade para comprar um par de tênis para o meu filho. Ao invés de levar de volta meus US$ 25, acabei deixando o dinheiro na loja e acrescentei mais US$ 55.

No dia 15 de maio, já de volta ao Brasil, recebi um email da organização da ½ maratona. Segundo eles, eu teria feito a minha inscrição com desconto por ter participado da Corrida da Ponte em 17/04. Oops! Como posso ter feito isto se eu me inscrevi antes da Corria da Ponte ter acontecido e se no dia 17 de abril eu estava a cerca de 8.000 kms de distância da Ponte Rio-Niterói (é esta Ponte que a Corrida da Ponte percorre)? Foram inflexíveis. Ou eu pagava a diferença (R$ 55,00) ou minha inscrição seria cancelada. Mais pelo desaforo que pelo dinheiro, optei pela segunda alternativa.

Não é a tecnologia envolvida que coloca as pessoas e os países nos séculos 21 ou 19; é a atitude das pessoas. Estas viagens no tempo são muito cansativas!

terça-feira, 15 de março de 2011

Viajar é preciso. Viver não é preciso.

Domingo, 22 de agosto de 1982. Você lembra o que aconteceu nesta data? Eu lembro. Meu amigo Marcos entrou na minha casa e disse: “Você viu que dá para viajar de graça para os Estados Unidos?”. E explicou: “O câmbio oficial está Cr$ 192,00 / US$ 1,00, enquanto o paralelo está CR$ 300,00 / US$ 1,00. Quem viaja pode comprar US$ 2.000,00 pelo câmbio oficial. Um pacote Fly and Drive (passagem, hotel e aluguel de carro) está custando US$ 1.100,00 também pelo dólar oficial. Então: US$ 3.100,00 pelo oficial = Cr$ 595.000,00; US$ 2.000,00 pelo paralelo = R$ 600.000,00. Pronto! Uma semana de graça nos Estados Unidos.”

Antes de prosseguir cabem algumas explicações, principalmente para quem não era nascido àquela época. O Cruzeiro era a moeda oficial do país, representada pelo símbolo Cr$. A inflação era alta no país e as pessoas compravam dólares para preservar o valor do dinheiro. Existia um controle cambial muito rígido e o dólar oficial só podia ser comprado em circunstâncias específicas e em quantidades específicas. Brasileiros não podiam ter cartão de crédito internacional. Não se podia sacar de sua própria conta em viagem ao exterior. Então, as pessoas recorriam aos doleiros. Era ilegal, mas as cotações eram divulgadas diariamente pelos jornais. Coisas de Brasil!

Naquele momento o governo ampliou a quantidade de dólares que podia ser comprada no câmbio oficial por quem ia viajar; de US$ 1.000,00 para US$ 2.000,00. Criou-se a janela de oportunidade que o Marcos identificou.

Eu quis aproveitá-la. Mas, não tinha passaporte e muito menos visto. A cronologia foi a seguinte:
Segunda-feira, 23 de agosto. Falei com meu chefe no trabalho, se eu podia aproveitar o feriado de sete de setembro para passar uma semana fora. Ele permitiu. Liguei para a agência de viagens e fiz a reserva do pacote.
Terça-feira, 24 de agosto. Fui ao doleiro e vendi os US$ 2.000,00 que eu já tinha guardados para outra viagem que eu pensava fazer. No mesmo dia, fui à polícia federal e dei entrada no pedido de passaporte. Ainda na terça-feira, fui à agência de viagens e paguei o pacote.
Quarta-feira, 25 de agosto. Peguei meu passaporte (sim, naquela época ficava pronto em 24 horas) e fui ao consulado americano para dar entrada no pedido de visto.
Quinta-feira, 26 de agosto. Fui pegar o visto (sim, naquela época ficava pronto em 24 horas). Foi negado! Com razão; eu era um garoto de 23 anos, solteiro, sem bens: candidato perfeito a ir e não voltar. Pedi para falar com o cônsul. Ele veio pessoalmente e eu expliquei que não era nada disso. Mostrei que eu cursava o mestrado, que eu tinha um emprego e não tinha nenhum motivo para ficar nos EUA lavando pratos. Ele me concedeu um visto, válido para uma única entrada e com validade para 90 dias. Era só o que eu precisava e agradeci muito.
Sexta-feira, 27 de agosto. Nada aconteceu. Muita tensão. Já imaginou se o governo fizesse uma maxidesvalorização do Cruzeiro (outra coisa bastante comum em tempos de controle cambial)? Todo o esquema iria furar. E eu só podia comprar os dólares com a passagem na mão.
Sábado, 28 de agosto. A passagem chegou. Fui ao Galeão e comprei os dólares na agência do Banco do Brasil que funcionava em regime especial por lá. Tudo pronto!
Terça-feira, 31 de agosto. Embarquei para 8 dias de uma excelente e inesquecível viagem.

Tente fazer isto hoje! Para tirar o passaporte, você precisa iniciar um processo pela Internet, mas agendar a entrega dos documentos para algo entre dois e três meses depois e mais duas semanas até o passaporte ficar pronto. Com o visto, a mesma coisa ... ou pior. Tente conversar pessoalmente com o cônsul! Duvido que você consiga.

Ou seja, graças à Internet e com muita sorte, em APENAS seis meses você estará pronto para viajar.

Às vezes, dá saudades do século vinte.   

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Tragédias no curto e no longo prazo

Nas tragédias percebe-se a diferença no grau de desenvolvimento de um povo. Para ser mais exato, é a transformação de um incidente em tragédia que denuncia a condição de subdesenvolvimento.

Na Austrália aconteceu uma enchente duas vezes pior que a ocorrida em janeiro no estado do Rio de Janeiro. Lá, com duas semanas de antecedência, os moradores das áreas de risco foram avisados e informado o esquema de evacuação e relocação ao qual deveriam obedecer. Resultado: 16 mortos. Isto é um incidente.

No Rio de Janeiro ocorreu o oposto. Apesar dos radares meteorológicos indicarem o que viria, nada foi feito. Resultado mais de 800 mortos oficiais e outros que ainda serão oficializados. Isto é uma tragédia.

Não é preciso tecnologia. O que precisa é atenção e cuidado com a vida humana. O prefeito de Areal soube o que estava acontecendo em um município vizinho. Entendeu o que aconteceria com a sua cidade caso não fizesse nada. Com um carro equipado com alto-falantes evacuou a população sujeita à enchente do rio. Resultado: nenhum morto em Areal.

Nada parece que irá mudar. Passado o luto do momento, todos - autoridades e povo - continuarão agindo da mesma forma.

Todo povo tem sua cota de miseráveis. A análise dos mendigos de um povo indica o seu grau de desenvolvimento. País que só tem mendigos adultos é um país do século 21. A rede de amparo social insere todos os novos membros.

Países - como o Brasil - em que crianças mendigam nas ruas, está ainda no estágio de um livro de Victor Hugo.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Virada de século!

Mais do que o calendário, grandes eventos marcam a mudança das eras. O século 19 acabou com o início da Primeira Guerra Mundial. O século 21 começou quando as Torres Gêmeas caíram. Em alguns casos, estes acontecimentos desencadeiam as mudanças. Em outros, apenas claramente demonstram que as mudanças já ocorreram.

Este ano se inicia no Brasil, marcado pela posse de Dilma Roussef. Primeira mulher a ocupar o cargo, sucede ao primeiro operário eleito para o cargo. Indo além: seu antecessor cumpriu integralmente dois mandatos para os quais foi democraticamente eleito, após o mesmo ter acontecido com Fernando Henrique Cardoso.

São 16 anos sem sobressaltos. Antes disto, tivemos uma ditadura militar que foi sucedida por uma eleição indireta, em que o presidente eleito faleceu antes de tomar posse, deixando o cargo para o seu vice José Sarney. Este foi sucedido por Fernando Collor de Mello, que não completou  o mandato por ter sofrido “impeachment”. O mandato foi completado por Itamar Franco, seu vice.

A sucessão de nomes do parágrafo anterior – todos ocupam atualmente o cargo de senador da República – dá a pista que aos eventos narrados anteriormente falta o tom de mudança que poderia indicar que o Brasil também evoluiu. Pior que isto, o processo de formação do governo foi muito semelhante à disputa por favores imperiais que marcou o Império Brasileiro.

Por tudo isto, só me resta desejar a todos um feliz ”mil e oitocentos e duzentos e onze”!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Choque de eras

Para quem não me conhece muito, eu sou um Leitor. Assim mesmo, com a primeira letra maiúscula. Eu gosto de ler; é um dos meus divertimentos preferidos.

Logo, eu precisava de um leitor de livros eletrônicos.

Ao pesquisar, tive logo uma primeira decisão a tomar: comprar um leitor nacional ou um importado. O preço logo do aparelho deixou os leitores nacionais em desvantagem. O aparelho do Gato Sabido (Cool-er) custa R$ 599,00 e o da Positivo (Alfa) custa R$ 899,00. O Kindle da Amazon custa US$ 139,00 (R$ 243,00) e o Nook da Barnes & Noble custa US$ 149,00 (R$ 260,00). Ou seja, o mais barato dentre os principais nacionais custa mais do que o dobro do preço do mais caro entre os importados considerados.

Mas, a grande prova do atraso tupiniquim vem no próximo quesito: o preço dos livros. Enquanto desde o lançamento, um ebook tem um preço de cerca de 50% da versão impressa, por aqui este desconto é tão irrisório quanto 6% (por exemplo, 1822 de Laurentino Gomes custa R$ 28,05 no Gato Sabido e R$ 29,90 para a versão impressa no Submarino).

Isto significa que um leitor eletrônico americano está pago com apenas 15 livros, enquanto um leitor eletrônico brasileiro precisa de 300 livros para se pagar. Para isto, é necessário ser um LEITOR, com todas as letras maiúsculas. Só mesmo um Mindlin, que ao longo de mais de 90 anos de vida formou uma coleção com cerca de 17.000 livros conseguiria ver o seu investimento em um leitor eletrônico nacional retornar em menos de um ano. No meu ritmo de 1 livro / semana, seriam necessários seis anos: tempo mais que suficiente para que a tecnologia evolua e justifique adquirir outro aparelho (tentando obviamente não perder o acervo já constituído).

Finalmente, decidi-me pelo Kindle e recebi-o na semana passada. Já li dois livros, estou lendo outros 3 e tenho mais 29 na fila. De todos estes, apenas um foi comprado. Todos os demais estão disponíveis "for free". E não estou falando de autores independentes. Lewis Carroll, Alexandre Dumas, Aristófanes e outros próceres da literatura mundial (todos mortos, é verdade!).

O livro que comprei acabou gerando outro exemplo do atraso local. A autora é a Noga Sklar, que resolveu formar uma editora especializada em livros eletrônicos. Tudo muito high-tech. Mas, em seu blog (www.noga.blog.br) ela conta algumas de suas desventuras com a burocracia nacional. Por exemplo: um dos quesitos do Ponto Frio para que ela pudesse vender seus livros eletrônicos na loja virtual é ter uma sede comercial em que o Ponto Frio possa fiscalizar seus estoques. Oops! Estoque de que? Bits e Bytes? Ou, quem sabe, de suco de cérebro?

E lá vamos nós: rumo ao século 20!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Pior que está ... fica

Mantive-me, de propósito, longe do teclado durante o período eleitoral. Gostaria que este blog fosse visto como não alinhado com questões político-partidárias.

Agora que já sabemos em quais mãos estarão os futuros da nação e dos estados, é hora de voltar ao batente.

Nesta volta, escolhi o título parafraseando o candidato a Deputado Federal mais votado no estado de São Paulo: Francisco Everardo Oliveira Silva, que usa o nome artístico de Tiririca. Ele disse: "Pior que está não fica. Vote em Tiririca".". Ser artista assim como exercer qualquer outra profissão igualmente honesta, não desqualifica ninguém. Ser criativo e divertido ao pedir votos também não. Mas, existe um limite. O que o desqualifica é ter afirmado em sua campanha: "Você sabe o que um deputado faz? Eu também não. Mas vote em mim que eu vou descobrir e depois te conto".

Para exercer qualquer profissão honesta, incluindo o exercício de um cargo público, é imperativo saber do que se trata. Quem não sabe, irá legislar itens tão relevantes quanto homenagens a ditadores, nomes de logradouros públicos e outros itens de igual calibre, que formam um triste acervo das casas legislativas brasileiras.

E, pelo visto, vai piorar.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A Copa acabou. O jogo continua...

As Copas e a reinvenção do Brasil pelo governo atual andam juntas.


Em 1994, a comissão técnica comandada por Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, conquistou uma vitória brilhante em uma disputa que se arrastava há muitos anos contra o time Inflação e seu mascote: o dragão verde. A dupla Parreira e Zagallo obteve resultado semelhante.

Na França em 1998 foi mais complicado. Mesmo com Fernando Henrique Cardoso, agora na posição de técnico, a Rússia caiu perante o forte esquadrão cambial e o Brasil foi junto. Coincidentemente, o antigo auxiliar técnico Zagallo também tinha sido promovido a técnico e conseguiu nos colocar na final, quando caímos perante o time da casa.

Chegamos a 2002. Fernando Henrique Cardoso ainda liderava a comissão técnica, mas já se sabia que não poderia continuar. O ataque vinha exatamente daqueles que apostavam que seu substituto seria Luiz Inácio Lula da Silva e que este mudaria nosso esquema tático. Felipão ficou firme e trouxemos o caneco mais uma vez.

Em 2003 foi empossada a nova comissão técnica. Luiz Inácio Lula da Silva manteve o esquema tático. Porém, a comissão técnica armou o maior oba oba, renegou o passado, disse que tudo de bom tinha começado somente em 2002 e tudo de ruim que o Brasil tinha era herança das comissões técnicas anteriores. A prosperidade chinesa ajudou muito. Parecia que nosso time daria conta do recado. Com Parreira ocorreu o mesmo: passamos pelas eliminatórias e chegamos à Alemanha embaladíssimos ... pelo samba, pela festa ... e caímos nas quartas de final contra a França.

A festa falou mais alto e Luis Inácio Lula da Silva continuou na chefia da comissão técnica. Vários auxiliares tiveram que ser substituídos, mas a equipe foi até mesmo aumentada. Algumas crises vieram e foram. Chegamos finalmente a 2010 e à Africa do Sul. Apesar de Dunga ter pregado uma organização totalmente nova, o que vimos foi o mesmo resultado. A Holanda nos derrubou nas quartas de final.

Nossa sorte é que Dunga não faz seu sucessor. Nosso azar é que Luiz Inácio Lula da Silva tem uma chance concreta de fazer o seu. Em 2014 jogamos em casa. Não precisaremos passar por eliminatórias. Provavelmente daqui até lá tudo ainda parecerá correr bem.

Mas se continuarmos a jogar ao lado de Ahmadinejad, Chavez e outros comandantes em chefe que se importam demais com suas vaidades e sonhos de poder e de menos com seus países e povos, ficaremos no século vinte somente com muita sorte. Nosso destino pode ser um passado ainda mais distante.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Ano de Copa, ano de eleição ...

Eleições acontecem de dois em dois anos. A deste ano é aquela da cédula grande: presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual. Em especial, este é o ano em que são eleitos dois senadores.

Mas eu estou me adiantando muito. Antes disto, ainda temos a Copa. Que já começou! As zebras estão dando suas galopadas na África. Pelo menos até o momento não fomos atropelados por um destes equinos.

Os dois eventos têm muito em comum. O país para. É verdade que com muito mais animação para a Copa. Durante este mês, é o assunto obrigatório. A crise que espere. Para a eleição, o astral é o oposto. A crise é o foco. Se a oposição vencer o país quebrará. Para a oposição, já quebrou.

Todos são técnicos, comentaristas e sábios. Menos o técnico no caso da Copa e todos os que se alinham na corrente política oposta, no caso da eleição. Estes e aquele são BURROS.

Torcer pelo Brasil na Copa é inevitável. Vamos torcer pelo Brasil também na hora de colocar nosso voto na urna eletrônica.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Bons mergulhadores para tempo calmo. Já, se o tempo fecha ...

Eu me lembro muito bem do meu curso de mergulho. Para simplesmente mergulhar (e voltar à superfície) não há muito para aprender. O tempo todo se deve respirar continuamente. Nunca prender a respiração. Na descida, há que continuamente compensar o aumento da pressão externa (no ouvido e na máscara). E pronto. É só isto o que você precisa saber.


Desde que, é claro, o dia esteja tranquilo, você esteja em plena forma e sem nenhum problema de saúde, a água esteja clara, o seu equipamento esteja perfeito, o seu instrutor esteja por perto, o mergulho não passe de 10 metros, não aconteça nada assustador e também absolutamente nada inesperado. Se for só tudo isso (como dizem os Cassetas), não há mais nada a aprender. O curso poderia ter terminado na primeira meia hora.

As outras cinco semanas do curso nos ensinaram a agir apropriadamente quando alguma das condições perfeitas deixa de ocorrer. Suponha que o seu companheiro de mergulho esbarre em você e a máscara saia do seu rosto. Ou que alguma peça do equipamento se rompa ou apresente defeito. Estas e outras situações são simuladas no curso para que os alunos aprendam o que fazer nos casos de emergência.

Isto foi há quase 30 anos atrás. De lá para cá, mais de 100 horas de mergulho por ano. Outros cursos, como mergulho noturno, em cavernas, busca e salvamento e mergulho profundo.

Quantas vezes estive em situação de emergência? Nenhuma. É claro que teve uma vez em que a alça da minha máscara arrebentou. Em outra, meu companheiro teve uma câimbra. Em outra ainda, esbarrei com um cardume de arraias de mais de 3 metros cada. Teve também aquela vez em que a âncora do barco se soltou e tivemos que nadar por uma hora e meia até alcançá-lo. E assim por diante. Sem contar os diversos cortes e machucados diretamente ligados a uma atividade movimentada ao ar livre. Novamente, em nenhuma destas ocasiões, algo inesperado transformou-se em uma emergência, ou ainda pior em uma tragédia.

O que isto tem a ver com o tema deste blog. Tudo. Nossos administradores, em todos os níveis, comportam-se como mergulhadores que abandonaram o curso após a primeira meia hora.

É fácil perceber que o que separa um contratempo de uma tragédia é um pequeno conjunto de despreparos. Tomemos o acidente da TAM em Congonhas como exemplo. Manetes na posição errada com um reverso pinado já haviam sido causa de dois acidentes anteriormente. Porém, nas duas ocasiões ocorreram apenas danos materiais e ferimentos leves. O que transformou um acidente banal em uma tragédia foram as condições da pista. E depois? A reação das autoridades foi patética. Jogo de empurra para se livrar de responsabilidades e uma indigna dancinha festiva em meio à dor, quando o bode expiatório foi localizado.

E quando chove muito? Igual. E quando não chove nada? Mais uma vez, igual. Com o agravante do bode expiatório ser São Pedro. Um pouco de realidade, por favor. O Santo manda chuva foi apenas o causador da água que caiu. O causador da tragédia foi outro manda chuva.

Antigamente era assim mesmo. Por falta de conhecimento, porque os administradores eram herdeiros de seus feudos ou por qualquer outro motivo que fosse, era comum que os líderes chegassem ao poder despreparados ou apenas parcialmente preparados.

Nada mudou por aqui. Já passou da hora.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Imunidade parlamentar. Foro privilegiado. Reciprocidade.

Originalmente pode-se justificar a imunidade parlamentar associada aos chamados crimes de opinião: Calúnia, Injúria e Difamação. A atividade parlamentar é inerentemente controversa. Diferenças de opinião podem confundir-se com ofensas e verdadeiras ofensas podem ser proferidas no calor do debate. Porém, é mister lembrar que quando agem desta forma, os representantes do povo (deputados) e dos estados (senadores) estão agindo em nome de seus representados e as opiniões emitidas refletem os anseios e aspirações de seus eleitores. Por tudo o que está escrito acima, é válido que os parlamentares sejam considerados imunes aos crimes de opinião.


Ensinam os estudiosos do assunto que a imunidade parlamentar esteve presente em todas as constituições brasileiras desde o século 19 e que não é algo que existe somente por aqui (como as jabuticabas). Originou-se na Inglaterra em 1600 e firmou-se após a Revolução Francesa em 1789. Existe em todas as democracias como forma de reequilibrar os poderes, impedindo a supremacia do Poder Executivo.

Porém, o mesmo não deveria ocorrer com quaisquer outras afrontas à legislação. Quando um deputado é flagrado com dinheiro de fontes duvidosas, isto ocorreu como fruto de ações que não se relacionam com o mandato para o qual foi designado. Nem quando dirige embriagado e muito menos quando causa um sério acidente como resultado de sua conduta temerária.

Na mesma linha, pode-se abordar o foro privilegiado. Para evitar perseguições de cunho político que impeçam a legítima ação de uma autoridade no exercício de sua função, estas ações podem ser objeto da proteção de uma corte superior, isenta, suprapartidária.

Porém, a história diz que o “foro privilegiado é uma herança deixada pela política adotada no tempo que o Brasil era uma colônia portuguesa. Naquele tempo, onde a escravidão era uma coisa normal, não se admitia que um político ou uma pessoa "importante" para a colônia fosse julgada da mesma maneira que um cidadão comum” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Foro_privilegiado).

Pior ainda é o caso do foro privilegiado ao qual passam a ter direito autoridades empossadas após a instauração de um processo por crime cometido anteriormente. Perde-se a conta, a quantidade de indivíduos que se candidatam com o propósito principal de conseguir adiar sua punição, ou até mesmo conseguir a prescrição de seu delito.

Uma alternativa interessante seria adotarmos a RECIPROCIDADE. Então, se um parlamentar é imune e goza de foro privilegiado por afrontar os cidadãos, estes poderiam ficar imunes e terem foros privilegiados para avaliar suas ações se o objeto de seus delitos fossem os parlamentares. Pena que uma lei neste sentido teria que ser votada pelos próprios atingidos e nunca seria aprovada, mesmo que todos os representados assim desejassem.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Dinheiro. A quem pertence?

Parece uma resposta fácil: o que é meu, é meu; o que é seu, é seu; o que é dele, é dele. Ninguém deve mexer no que não é seu e ninguém tem o direito de opinar no que cada um faz com o que é seu.

Porém, existe alguém que leva parte do que é de cada um. Supostamente com o seu consentimento. Esta parte chama-se imposto e este alguém, Governo. O consentimento se origina dos impostos serem definidos, administrados e aplicados por representantes escolhidos por todos.

O princípio é muito bem expresso na frase “No taxation without representation”. Começou como um slogan nos EUA no período de 1763 até a independência em 1776 e exprimia o sentimento da então colônia britânica com relação aos impostos que a Coroa aplicava aos colonos. Então, a independência americana começou com uma tentativa de se livrar de impostos? Perfeitamente. A questão não era simplesmente deixar de pagar, mas pagar impostos justos que revertessem em um benefício também reconhecido como justo.

Não quer dizer que o dinheiro dos impostos deva beneficiar diretamente quem contribuiu na proporção de sua contribuição, mas que os representantes escolhidos definam, de acordo com as Políticas de Estado, a aplicação mais adequada para o que foi arrecadado.

E por aqui? Quase tivemos algo parecido. Aprendemos nas aulas de história que entre as causas da Inconfidência Mineira, também aparece o sentimento de injustiça com relação aos impostos cobrados por Portugal e que a tomada do poder estava marcada para a “Derrama”, buscando aproveitar a insatisfação geral com a cobrança de um acumulado de impostos. O cancelamento da Derrama foi parte do processo de desmantelamento da revolta, para que a população aceitasse com tranqüilidade a prisão e julgamento dos inconfidentes.

Analistas mais atentos nos dizem, deixando a patriotada de lado, que a Inconfidência Mineira foi um ato de oportunismo. Na verdade teria sido uma iniciativa de um bando de endividados. A exceção seria exatamente o Tiradentes, que acabou sendo o único a ter a dívida executada.

Atualmente, o Brasil é uma democracia de fato. Nós escolhemos diretamente os nossos representantes. Deveria estar tudo certo então. No entanto, dos dois lados da equação que a conta não fecha. “Nós” não sentimos que “eles” nos representam e “eles” não se sentem ligados e identificados com quem deveriam representar.

É patético como os discursos estão recheados de “eu liberei milhões” para isto e aquilo, como se o dinheiro fosse deles, para aplicar a seu bel prazer e à sua conveniência. Não é. O dinheiro é de todos. E deve ser aplicado consistentemente para atingir propósitos determinados em instâncias superiores às circunstâncias.

Hoje, o sentimento geral é semelhante ao que existia nos séculos 17 e 18. É como se existisse uma Corte brasileira, nadando no fausto, acima de qualquer crise, oferecendo pão e circo. Como se? Precisamos urgentemente mudar de século.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Políticas de Estado e Políticas de Governo

O regime de governo brasileiro é o presidencialismo. Nele, o Presidente da República ocupa ao mesmo tempo o cargo de Chefe de Estado e de Chefe de Governo. Nos EUA também é assim, e isto não é necessariamente errado. As duas posições deveriam funcionar de forma harmônica e complementar.

Porém, no Brasil ao invés de se complementarem, os papéis acabam por se confundir e, pior ainda, o Governo brasileiro se sobrepõem ao Estado brasileiro.

Por que esta supremacia inversa é ruim?

A diferença fica clara quando assistimos aos debates em eleições presidenciais lá e cá. Nos EUA todos os políticos concordam com os problemas; as discordâncias – quando existem – localizam-se nos caminhos propostos para resolvê-los. Inflação é um problema? Claro que sim. Qual a sua proposta de solução, senhor candidato republicano? E a sua, senhor candidato democrata? Estamos perdendo a luta pela supremacia comercial com os tigres da Ásia? Novamente, ambos concordam que sim e cada um propõe abordagens em linha com as suas respectivas diretrizes partidárias.

E no Brasil? Não existe consenso com relação aos problemas. As diretrizes partidárias são conflitantes e algumas vezes afrontam até mesmo a Constituição Brasileira. Alguns exemplos do Programa do PSOL esclarecem exemplarmente:

- Parte I, item 3 – Rechaçar a conciliação de classes e apoiar as lutas dos trabalhadores. Isto vai frontalmente de encontro ao artigo 3º da Constituição que diz: os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil são: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

- Parte III, item 8 - Abaixo as privatizações. Estatização das empresas privatizadas. Expropriação dos grandes grupos monopólicos capitalistas. A Constituição é absolutamente clara ao garantir a propriedade privada, explicitando como única causa de expropriação, a cultura ilegal de plantas psicotrópicas (artigo 243).

Isto significa que os políticos deste partido, e de outros tantos que proliferam no país, ao ocuparem um cargo de poder, ou atuarão de forma inconstitucional ou trairão seus princípios partidários. De uma forma agirão ilegalmente, enquanto de outra terão usado de platitudes e bravatas para iludir eleitores incautos e obter o poder.

Não se constrói uma verdadeira nação desta forma.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Foz do Iguaçu: uma exceção.

Em meio a tantas iniciativas deslocadas no tempo, Foz do Iguaçu surge como algo diferente. Não que esteja fora do contexto geral do país, mas é interessante observar como alguns de seus destaques sintonizam-se perfeitamente com o período vigente em cada momento.


O Parque Nacional do Iguaçu, onde estão localizadas as Cataratas, foi estabelecido em 1939. Até chegar àquele momento, muita água correu (com o perdão do trocadilho). Foi proposto inicialmente pelo engenheiro André Rebouças em 1876 a partir do que ele viu no Parque Yellowstone nos EUA, então com quatro anos de idade. O parque e não o engenheiro. De sua criação até 1998, o parque foi tão bem cuidado quanto possível na administração pública brasileira.

Em 1999 foi constituída uma empresa (Cataratas do Iguaçu S/A) para administrar o parque, de acordo com uma concessão do IBAMA. Isto envolve um equilíbrio entre a obtenção de retorno econômico – necessário para que uma empresa sobreviva – através da exploração do potencial turístico e regras muito rígidas de preservação.

Uma visita ao parque é uma experiência única. A beleza natural está acima de qualquer discussão. Mas impressiona muito o estado de conservação, a limpeza e a qualidade dos serviços. Estes estão disponíveis para todos os gostos e capacidades: dos mais tranquilos aos mais aventureiros. Emociona!

Itaipu é outro exemplo. O acordo para sua construção foi assinado em 1973 pelos generais que presidiam o Brasil e o Paraguai à época. Ao rever as fotos do período de construção, fica claro que atualmente não se conseguiria aprovação ambiental para a obra. Independente de se discutir se esta seria a obra certa – cogitou-se a possibilidade de fazer seis usinas menores em diferentes pontos do rio Paraná – é certo que o Brasil do presente não pode prescindir do volume de energia produzido por Itaipu. Tudo muito século 20.

Com aquele objetivo cumprido, também é notável a atualidade das posturas e iniciativas atuais da Itaipu Binacional, empresa que administra a Usina. Projetos de empreendedorismo, projetos de inovação tecnológica, desenvolvimento sustentável de comunidades do entorno do lago e de preservação ambiental fazem parte do cardápio de ações da Empresa. Neste último, vale destacar o Canal da Piracema que é um canal de mais de um quilômetro, em parte sobre leito natural e em parte artificial, para que peixes possam contornar a barragem e chegar ao lago de Itaipu para desovar. Finalmente, até mesmo o turismo tem seu espaço. Existem visitas para todos os tipos de público: somente externa, com direito a conhecer o interior da Usina, visita técnico-científica e iluminação noturna da barragem são os mais importantes.

Que o exemplo seja seguido. Vamos fazer agora o que precisa ser feito, porém com uma atitude que incorpore tudo o que aprendemos nos últimos anos.